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terça-feira, 27 de abril de 2021

HILÁRIO DE ARLES

Bispo, Santo
401-449

Hilário, nascido em 401, foi um jovem de família nobre, bem educado e com uma carreira tendendo ao sucesso. Era aparentado com Santo Honorato, que estava determinado em convertê-lo para Cristo e fazê-lo também monge. Já velho, Santo Honorato empreendeu uma viagem até Arles para convencer Hilário a acompanhá-lo, mas este fez ouvidos de surdo, restando ao santo entregar o caso nas mãos de Deus. Hilário conta o que aconteceu:

Embora eu lembre os grandes serviços de Honorato para com todos, devo falar do infinito cuidado para comigo, pois certamente me trouxeram a salvação em Cristo. Mesmo naqueles anos quando eu era muito amigo do mundo e obstinado contra Deus, como um honesto sedutor, com sua gentil mão, ele conduziu-me ao amor de Cristo.


Quando suas palavras piedosas causaram pouca impressão em mim, buscou o melhor refúgio que conhecia: a oração. Seus apelos amorosos entraram nos mais sagrados ouvidos de Deus apelando por misericórdia.

Mas naquele tempo eu obtive uma vitória desastrosa. Então a mão direita de Deus passou a atormentar-me, pois Honorato havia pedido para Ele colocá-la sobre mim. Que tempestades de desejos conflituantes atormentavam meu coração! Quantas vezes concordância e discordância alternavam-se em minha mente! Assim, enquanto Honorato estava longe de mim, Cristo trabalhava em mim. Pelas suas orações, minha obstinação foi conquistada.

Enquanto o Senhor me chamava, todos os prazeres do mundo se apresentavam, minha mente ponderava qual caminho seguir, qual abandonar. Graças a Deus, meu Bom Jesus entranhou-se no seu servo, quebrou os laços com o mundo e forjou laços de amor. Se eu continuar a me sustentar nestes, os laços dos pecados jamais ganharão novamente suas forças.

Hilário foi então ao encontro de Santo Honorato e tornou-se monge. Quando Honorato foi eleito bispo de Arles, pediu que Hilário o acompanhasse; e, após a sua morte, assumiu o bispado em 429. Enquanto serviu como bispo, manteve os hábitos monásticos, fazia trabalhos braçais para arrecadar dinheiro para os pobres e também vendeu ornamentos e riquezas para pagar pela libertação de escravos. Fundou vários mosteiros e revitalizou outros que já existiam.

No entanto, possuía um espírito um tanto autocrático e impaciente nas questões administrativas. Além disso, seu exemplo de austeridade causava problemas com outros bispos que tinham preocupações mais terrenas. Certa feita, ao saber que um bispo estava por morrer, aproveitou a ocasião para indicar um sucessor mais ao seu estilo. Mas o bispo recuperou a saúde, criando uma situação de conflito. Outra feita, num Concílio da Igreja Francesa, depôs um Bispo que não seguia suas orientações. Ambos casos foram parar em Roma. Depois de muitas negociações, o Papa Leão Magno decidiu por afirmar sua autoridade sobre Hilário e os demais metropolitas quanto a nomeação de novos bispos e ainda dividiu a diocese de Arles em outras menores. 

Santo Hilário entrou em obediência, publicamente submetendo-se ao Papa e passou a dedicar-se a pregações e catequeses. Percebendo que a morte se aproximava, pois as pesadas penitências que se submetia lhe enfraqueciam o corpo, escreveu ao Papa sugerindo um nome para seu sucessor, deixando claro que reconhecia a autoridade do Bispo de Roma. Segundo a maioria das fontes, morreu em 5 de Maio de 449, mas São Roberto Belarmino cita 445 e Alberto de Mire, 446. Sabe-se com certeza que a carta do Papa elegendo Ravenio como seu sucessor é datada em Agosto de 449, quando certamente Santo Hilário já estava morto.



segunda-feira, 26 de abril de 2021

JÚLIO JUNYER PADERN

Sacerdote salesiano, Mártir, Beato
(1892-1938)

Durante a guerra civil espanhola, os salesianos pagaram um pesado tributo, com o sangue derramado por mais de uma centena deles…

Todos estes religiosos e religiosas vieram aumentar na “santidade salesiana” o número já consequente de Servos e Servas de Deus, de Beatos e Beatas e de Santos e Santas, à frente dos quais brilha de mil luzes o santo fundador, S. João Bosco.


Entre eles, destacamos aqui um: o padre Júlio Junyer Padern.

Ele nasceu em Vilamaniscle (Girona) em 31 de Outubro de 1892. Foi baptizado em 13 de Novembro.

Entrou para os Salesianos em 24 de Novembro de 1906; sendo admitido ao noviciado em 27 de Julho de 1911. Emitiu os votos trienais em 31 de Julho de 1912 e os votos perpétuos em 3 de Setembro de 1915. Foi ordenado sacerdote em 21 de Maio de 1921. Destinado à formação com o cargo de director espiritual, fez-se amado e estimado pela sua bondade e justiça. Ele era um homem piedoso e muito dedicado apostolicamente.

Ele ficou preso entre o final de Janeiro e Abril de 1938. Foi acusado de alta traição — a única acusação que o poderia levar à morte! – por ter ajudado diversos jovens salesianos a passar a fronteira com a França.

Foi assassinado em 26 de Abril de 1938. O corpo foi recolhido por seus parentes e enterrado em um nicho no cemitério oriental de Barcelona.

Foi beatificado em 11 de Março de 2001, ao esmo tempo que 31 outros mártires, entre os quais o padre José Calasanz Marques.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CLÁUDIO DE TROYES

Leigo, Mártir, Santo
século III

Cláudio era um soldado romano do exército de Aureliano (270-275). Pelejou na Gália e, recebeu Júlia de Troyes como escrava e espólio de guerra (muito comum naquela época). Ela, que era cristã e acabou por convertê-lo ao cristianismo que nesse tempo longínquo ainda estava nos seus primeiros balbucios naquela região da velha Europa. Mais tarde, esta situação veio ao conhecimento do feroz imperador que, sem hesitar o mandou prender, assim como outros cristãos, habitantes da mesma cidade. Faziam parte deste grupo, entre outros, São Justo, São Jucundo e Santa Júlia: todos foram torturados por não quererem renegar a fé em Jesus Cristo e sacrificar aos deuses romanos. Esta recusa enfureceu o imperador, que ordenou fossem duramente martirizados publicamente, como exemplo. Uma vez mais se iria confirmar que “o sangue dos mártires é semente de cristãos”, porque depois destes outros mais, na mesma região derramaram o seu sangue pela fé em Cristo Jesus.
Como, milagrosamente, não parecia sofrer durante o martírio e continuava a cantar hinos de louvor a Jesus o procônsul encarregado do martírio, furioso mandou que fosse decapitado em Troyes, na Gaula (hoje França). As suas relíquias estavam guardadas – até ao momento da revolução francesa – num Convento de Jouarre, não longe da cidade de Troyes.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

REGINA DE ALESIA

Virgem, Mártir, Santa
século III

Regina ou Reine, seu nome no idioma natal, viveu no século III, em Alise, antiga Gália, França. O seu nascimento foi marcado por uma tragédia familiar, especialmente para ela, porque sua mãe morreu durante o parto. Por essa razão, a criança precisou de uma ama de leite, no caso uma cristã. Foi ela que a inspirou nos caminhos da verdadeira fé e da virtude. Quando adolescente a própria Regina pediu para ser batizada no Cristianismo, embora o ambiente em sua casa fosse pagão.
A cada dia se tornava mais piedosa e tinha a convicção de que queria ser esposa de Cristo. Nunca aceitava o cortejo dos rapazes que queriam desposá-la, tanto por sua beleza física como por suas virtudes e atitudes, que sempre eram exemplares. Ela simplesmente se afastava de todos, preferindo passar a maior parte do seu tempo reclusa em seu quarto em oração e penitência.
Entretanto, o real martírio de Regina começou muito cedo e, em sua própria casa. O seu pai, um servidor do Império Romano chamado Olíbrio, passou a insistir para que ela aprendesse a reverenciar os deuses. Até que um dia recebeu a denuncia de que sua filha Regina era uma cristã. No início não acreditou. Mas decidiu que iria averiguar bem o assunto.
Quando Olíbrio percebeu que era verdade. Denunciou a própria filha, Regina, ao imperador Décio, que desejou seduzí-la com promessas vantajosas, caso renegasse Cristo. Ao perceber que nada conseguiria com a bela jovem, muito menos demove-la de sua fé, ele friamente a mandou para o suplício. Regina sofreu todos os tipos de torturas e, depois foi decapitada.
O culto à Santa Regina, se difundiu por todo o mundo cristão e assim suas relíquias foram varias vezes transladadas para várias igrejas. Até que, no local onde foi encontrada a sua sepultura, foi construída uma capela que atraiu grande número de fiéis que pediam por sua intercessão na cura e proteção. Logo em seguida surgiu a construção de um mosteiro e, ao longo do tempo, grande número de casas. Foi assim que nasceu a charmosa vila Sainte-Reine, ou melhor: Santa Rainha, na França. Esta festa secular ocorre tradicionalmente em todo o mundo cristão no dia 7 de setembro.
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domingo, 28 de agosto de 2011

JOANA MARIA DA CRUZ

Joana Jugan
Religiosa, Beata
1792-1879


Joana nasceu numa aldeia de Cancale, França, em 25 de outubro de 1792. Seu pai era um pescador e morreu no mar quando ela tinha quatro anos. Logo conheceu a pobreza e começou a trabalhar como empregada num castelo. Sustentava a família enquanto ajudava os idosos abandonados e pobres. Joana era sensível à miséria dos idosos que encontrava nas ruas, dividindo com eles seu salário, o pão e o tempo de que dispunha.
Aos dezoito anos de idade, recusou uma proposta matrimonial de um jovem marinheiro, sinalizando: "Deus me quer para ele". Aos vinte e cinco anos, deixou sua cidade para ser enfermeira no hospital Santo Estêvão. Nesse meio tempo, ingressou na Ordem Terceira fundada por são João Eudes.
Deixou o hospital em 1823 e foi residir e acompanhar a senhorita Lecoq, mais como amiga do que enfermeira, com quem ficou por doze anos. Com a morte da senhorita Lecoq, herdou suas poucas economias e a mobília. Assim, sozinha, associou-se à amiga Francisca Aubert e alugaram um apartamento, em 1839. Lá acolheu a primeira idosa, pobre, doente, sozinha, cega e paralítica. Depois dessa, seguiram-se muitas mais. Outras companheiras de Joana uniram-se a ela na missão e surgiu o primeiro grupo, formando uma associação para os pobres, sob a condução do vigário do hospital Santo Estêvão.
Em 1841, deixam o apartamento e alugam uma pequena casa que lhes permite acolher doze idosos doentes e abandonados. Sozinha, Joana inicia sua campanha junto à população para recolher auxílios, tarefa que cumprirá até a morte. Mas logo sensibiliza uma rica comerciante e com essa ajuda consegue comprar um antigo convento. Ele se tornou a Casa-mãe da nascente Congregação das Irmãzinhas dos Pobres, sob a assistência da Ordem Hospedeira de São João de Deus, hábito que depois recebeu, tomando o nome de Joana Maria da Cruz. Adotando o voto de hospitalidade, imprimiu seu próprio carisma: "A doação como apostolado de caridade para com quem sofre por causa da idade, da pobreza, da solidão e outras dificuldades".
Assim foi o humilde começo da Congregação, que rapidamente se estendeu por vários países da Europa. Quando Joana morreu na França, em 29 de agosto de 1879, na Casa-mãe de Pern, as irmãzinhas eram quase duas mil e quinhentas, com cento e setenta e sete casas em dez países.
Em setembro de 1885, estabeleceram-se na América do Sul, fundando a primeira Casa na cidade de Valparaíso, no Chile, a qual logo foi destruída por um terremoto e reconstruída em Viña del Mar. Atualizando-se às necessidades temporais, hoje são quase duzentas casas em trinta e um países na Europa, América, África, Ásia e Oceania.
Uma obra fruto da visão da fundadora, Joana Jugan, madre Joana Maria da Cruz, que "soube intuir as necessidades mais profundas dos anciãos e entregou sua vida a seu serviço", para ser festejada no dia de sua morte, como disse o papa João Paulo II quando a beatificou em 1982.
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sexta-feira, 6 de maio de 2011

MARIA LUISA TRICHET

Religiosa, Co-fundadora de Congregação, Beata

(1684-1759)

28 de Abril

Maria Luísa Trichet (ou Maria Luísa de Jesus), com São Luís Maria Grignion de Montfort, é a co-fundadora da Congregação das religiosas chamadas “Filhas da Sabedoria”.
Nasceu em Poitiers (França), no dia 07 de maio de 1684, tendo sido batizada no mesmo dia.  Filha de uma família de oito filhos, recebeu sólida educação cristã, tanto no seio da família, quanto na escola. Aos 17 anos, encontrou-se pela primeira vez com São Luís Maria Grignion de Montfort, que acabara de ser nomeado como capelão do hospital de Poitiers. Sua fama de pregador e de confessor já era notável entre a juventude daquela região.
Espontaneamente, Maria Luísa ofereceu seus serviços ao hospital. Ela consagra uma boa parte de seu tempo aos pobres e aos enfermos. Diante da sua dedicação, São Luís prontamente pediu-lhe para que ali permanecesse. A este convite, Maria Luísa respondeu com sua entrega total. Mesmo não havendo vaga para o cargo de governanta, aceitou ser admitida somente como simples colaboradora.
“Você voltará louca como este sacerdote”, lhe havia dito a sua mãe. “Que ideia, quando se é bela, jovem e de boa família, vestir um hábito cinza (2 de fevereiro de 1703) e passar seu tempo a cuidar de vagabundos, enfermos e empestados! Que loucura seguir este sacerdote louco!”
Durante dez anos, Maria Luísa desempenhou com a maior perfeição possível seu humilde serviço de cuidar dos inválidos. Nesta época, São Luís havia deixado Poitiers e Maria Luísa permaneceu à frente dos serviços.
A célebre cruz que Montfort havia deixado está colocada no centro do hospital. Maria Luísa leva uma cruz sobre sua túnica cinza, porém, de todo o coração. Com efeito, continua a realizar seu árduo trabalho de cada dia, enfrentando grandes dificuldades devido à diminuição do número de companheiras, além de sofrer duras perdas: a morte de suas irmãs e de seu irmão, jovem sacerdote morto por causa da peste, vitimado pela sua extrema abnegação.
Nesta fase deu-se o início da Congregação das irmãs “Filhas da Sabedoria”, em 1714 com a chegada da primeira companheira, Catarina Brunet e consolidada em 1715, com a fundação em La Rochele, com duas novas recrutas: Maria Regnier e Maria Velleau.
No ano seguinte (1716), São Luís Maria de Montfort morre prematuramente, com a idade de 43 anos. Este facto, a princípio, desestabilizou a jovem congregação, abalada duramente por esta notícia dolorosa e inesperada. Foi neste momento que Maria Luísa encontrou forças para reerguer o ânimo de todos, lembrando-se da frase escrita por São Luís: “Se não se arrisca algo por Deus, nada de grande se fará por Ele”.
Durante 43 anos Maria Luísa de Jesus cuida sozinha da formação de suas companheiras, conduz e desenvolve as fundações que se multiplicam: Escolas de caridade, visitas e cuidados aos enfermos, sopa popular para os mendigos, gestão de grandes hospitais marítimos na França.
Os pobres do hospital de Nior (Deux-Sèvres) a chamavam “A boa Madre Jesus”. Nisto expressava-se tudo! Seu lema de vida era muito simples: “É necessário que eu ame a Deus ocultamente, em meu próximo” (Coro de um cântico composto por Luís Maria de Montfort, destinado às Filhas da Sabedoria).
Quando ela morreu em Sant Laurent-sur-Sévre, em 28 de abril de 1759, a congregação contava com 174 religiosas, presentes em 36 comunidades, mais a Casa Mãe. São Luís Maria Grignion de Montfort e a Beata Maria Luísa de Jesus estão enterrados na Igreja Paroquial de São Lourenço.
Desde este momento, as Filhas da Sabedoria atravessaram os séculos arrebanhando milhares e milhares de vocações, pelo chamado à entrega total, pela loucura do Amor a Deus e aos pobres. Hoje, elas estão presentes nos cinco continentes.
Em 16 de maio de 1993, Maria Luísa de Jesus (Trichet) foi beatificada pelo Papa João Paulo II, em Roma. O Santo Padre esteve, em 19 de setembro de 1996 em Saint Laurent-sur-Sévre, quando rezou junto às tumbas de São Luís e da Beata Maria Luísa.

Fontes:

PEDRO CHANEL

Sacerdote, Primeiro mártir da Oceânia, Santo
(1803-1841)

28 de Abril

Pedro nasceu no dia 12 de Julho de 1803, na pequena Cuet, França. Levado pelas mãos do zeloso pároco, iniciou os estudos no seminário local e, em 1824, foi para o de Bourg, onde três anos depois se ordenou sacerdote.
Desde jovem, queria ser missionário evangelizador, mas primeiro teve de trabalhar como pároco de Amberieu e Gex, pois havia carência de padres em sua pátria. Juntou-se a outros padres que tinham a mesma vocação e trabalhavam sob uma nova congregação, a dos maristas, dos quais foi um dos primeiros membros, e logo conseguiu embarcar para a Oceânia, em 1827, na companhia de um irmão leigo, Nicézio.
Foi um trabalho lento e paciente. Os costumes eram muito diferentes, a cultura tão antagónica à do Ocidente, que ele primeiro teve de entender o povo para depois pregar a palavra de Cristo. Porém, assim que iniciou a evangelização, muitos jovens passaram a procurá-lo. O trabalho foi se expandindo e, logo, grande parte da população havia se convertido.
Ao perceber que vários membros de sua família haviam aderido ao cristianismo, Musumuso, o genro do cacique, matou Pedro Chanel a bordoadas de tacape. Era o dia 28 de Abril de 1841.
Foi o fim da vida terrestre para o marista, entretanto a semente que plantara, Musumuso não poderia matar. Quando o missionário Pedro Chanel desembarcou na minúscula ilha de Futuna, um fragmento das ilhas Fiji entre o Equador e o Trópico de Capricórnio, não se pode dizer que o lugar fosse um paraíso.
A pequena ilha é dividida em duas por uma montanha central, e cada lado era habitado por uma tribo, que vivia em guerra permanente, uma contra a outra. Hoje o local é, sim, um paraíso para os milhares de turistas que a visitam anualmente e para a população, que é totalmente católica e vive na paz no Senhor.
E se hoje é assim, muito se deve à semente plantada pelo trabalho de Pedro Chanel, que por esse ideal deu seu testemunho de fé. O novo mártir cristão foi beatificado em 1889 e inscrito no Martirológio Romano em 1954, sendo declarado padroeiro da Oceânia.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

VICENTE FERRER

Dominicano, Santo
1350-1419

5 de Abril

Vicente nasceu em Valência, na Espanha, em 1350. Passou a infância e a juventude junto aos padres dominicanos, que tinham um convento próximo de sua casa. Percebendo sua vocação, pediu ingresso na Ordem dos Pregadores (dominicanos) aos dezassete anos.
Vicente estudou em Lérida, Barcelona e Tolosa, doutorando-se em filosofia e teologia, e ordenando-se sacerdote em 1378. Pregador nato, nesse mesmo ano começou sua peregrinação por toda a Europa, durante um período negro da história, quando ocorreu a Guerra dos Cem Anos, quando forças políticas, alheias à Igreja, tinham tanta influência que actuavam até na eleição dos papas.
Assim, quando um italiano foi eleito papa, Urbano VI, as correntes políticas francesas não o aceitaram e elegeram outro, um francês, Clemente VII, que foi residir em Avinhão, na França. A Igreja dividiu-se em duas, ocorrendo o chamado cisma da Igreja ocidental, porque ela ficou sob dois comandos, o que durou trinta e nove anos.
Vicente Ferrer, pregador, já era muito conhecido. Como prior do convento de Valência, teve contacto com o cardeal Pedro de Luna, que o convenceu da legitimidade do papa de Avinhão, e Vicente aderiu à causa. Em 1384, o referido cardeal foi eleito papa Bento XIII e habilmente fez do dominicano Vicente seu confessor, sendo defendido por ele até 1416, como fazia Catarina de Sena, sua contemporânea, pelo italiano Urbano VI.
O coração desse dominicano era dotado de uma fé fervorosa, mas passando por uma divisão dessas, e juntando-se o panorama geral da Europa na época: por toda parte batalhas sangrentas, calamidades públicas, fome, miséria, misticismo, ignorância, além da peste negra, que dizimou um terço da população. Tudo isso fez que a pregação de Vicente Ferrer ganhasse a nuance do fatalismo.
Ele andou pela Espanha, França, Itália, Suíça, Bélgica, Inglaterra e Irlanda e muitas outras regiões, defendendo sempre a unidade da Igreja, o fim das guerras, o arrependimento e a penitência, como forma de esperar a iminente volta de Cristo. Tornou-se a mais alta voz da Europa. Pregava para multidões e as catedrais tornavam-se pequenas para os que queriam ouvi-lo. Por isso fazia seus sermões nas grandes praças públicas. Milhares de pessoas o seguiam em procissões de penitência. Dizem os registros da Igreja, e mesmo os que não concordavam com ele, que Deus estava do seu lado. A cada procissão os prodígios e graças sucediam-se e podiam ser comprovados às centenas entre os fiéis.
O cisma da Igreja só terminou quando os dois papas renunciaram ao mesmo tempo, para o bem da unidade do cristianismo. Vicente retirou seu apoio ao papa Bento XIII e, com sua actuação, ajudou a eleger o novo papa, Martinho V, trazendo de novo a união da Igreja ocidental. As nuvens negras dissiparam-se, mas as conversões e as graças por obra de Vicente Ferrer ficarão por toda a eternidade.
Ele morreu no dia 5 de Abril de 1419, na cidade de Vannes, Bretanha, na França. Foi canonizado pelo papa Calisto III, seu compatriota, em 1458, que o declarou padroeiro de Valência e Vannes. São Vicente Ferrer foi um dos maiores pregadores da Igreja do segundo milénio e o maior pregador do século XIV.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

VALÉRIO DA AUVERGNE

Monge, Santo
565-619

1º de Abril

Valério nasceu no ano 565, em Auvergne, na França. Sua família era muito pobre e ele trabalhava no campo. Ainda pequeno, tinha uma enorme sede de saber e, para aprender a ler e escrever, ele mesmo foi procurar um professor, e pediu que lhe ensinasse o alfabeto.

Mais depressa do que qualquer outro de sua idade, Valério já dominava a escrita e a leitura. Após conhecer a Sagrada Escritura, procurou um parente sacerdote que vivia num mosteiro próximo. Passou ali alguns dias, percebeu sua vocação para a vida religiosa e pediu seu ingresso naquela comunidade. Depois de um bom tempo realizando várias tarefas internas, foi aceito e recebeu as ordens sacerdotais.

Pouco depois, mudou-se para um mosteiro sob a direcção espiritual de Columbano, o grande evangelizador da Gália, actual França, que depois foi canonizado, onde aconteceu seu primeiro prodígio. Designado para cuidar da horta do convento, sem nenhum produto a não ser com o trabalho de suas próprias mãos, acabou com as pragas que assolavam anualmente as plantações. Tornou-se tão conhecido na região e tão respeitado internamente que foi testado em sua humildade. Com autorização do abade Columbano, procurou o rei Clotário, conseguindo dele um grande terreno para construir um mosteiro, em Leuconai, na França. Logo depois o local já contava, também, com uma igreja e várias celas para religiosos.

A fama do sacerdote Valério se propagou ainda mais, de modo que dezenas de homens, jovens e idosos, procuravam o convento para ingressarem na vida religiosa sob a sua orientação. Mas novamente sentiu-se impelido ao trabalho de evangelização. Na companhia de seu auxiliar Valdolem, viajou por todo o país pregando e convertendo pagãos.

Diz a tradição que o monge Valério possuía o dom da cura e há vários relatos sobre elas. Como a de um paralítico que voltou a andar ao toque de suas mãos e muitos doentes desenganados que se curavam na hora, na presença da população. Além disso, tinha o dom da profecia e um dom especial sobre os animais. Conta-se que, quando passava pela floresta, os pássaros vinham ao seu encontro, seguiam-no, pousavam em suas mãos, braços e ombros, parecia que "conversavam" com ele.

Valério morreu no dia 1o de abril de 619, no mosteiro de Leuconai, depois de converter milhares de pagãos, ter feito muitos discípulos e ter entregado sua vida à Deus, através do seu vigoroso e intenso apostolado. O culto de são Valério se propagou rapidamente, até mesmo porque o rei Hugo, seu devoto, dizia que o santo costumava orientá-lo em sonho, sendo muito festejado, além da França, na Itália, Alemanha e Inglaterra, no dia de sua morte.

sábado, 19 de março de 2011

GERTRUDES DE NIVELLES

Religiosa, Santa626-659

17 de Março

Gertrudes nasceu no povoado de Brabante, na cidade de Nivelles, Bélgica, no ano 626. Seu pai era Pepino de Landen, um homem rico e influente, descendente de Carlos Magno. Sua mãe era Ida, nobre e muito religiosa, que depois da morte do marido, fundou o duplo mosteiro de Nivelles, masculino e feminino, dos quais foi a abadessa até a morte. As filhas Gertrudes e Begga também fizeram os votos e vestiram o hábito, passando a viver no mosteiro, ao seu lado. Após a morte da abadessa, Gertrudes foi eleita a sucessora, tinha apenas vinte anos de idade. Mas, como o poder não a atraia, delegou-o a um dos monges, que passou a administrar ambos os mosteiros, enquanto ela ficou apenas com o título.
Gertrudes reservou para si a tarefa de instruir Irmãos e Irmãs, preparando-os na fé e motivando-os para a difusão da Palavra de Cristo. Isso significava um enorme esforço de sua parte pois viviam numa época de ignorância, e superstições. Um eclipse, por exemplo, era considerado um fenômeno sobrenatural e motivo de alarde para todos os camponeses, mesmo os instruídos na fé cristã.
Ela iniciou com vigor um grande processo de reformulação de ambos os mosteiros, chamando, da Irlanda, monges teólogos, os mais versados nas Sagradas Escrituras, para fundamentar essa reciclagem. Empregou toda a fortuna da família, bem como utilizou toda sua influência para esse intento. Mandou, vários emissários a Roma para trazerem livros, não só de cunho litúrgico, ampliando muito a biblioteca. A missão de Gertrudes se tornara uma luta para a difusão da doutrina católica através da instrução e pôde retirar o véu da ignorância que envolvia tanto o clero como os habitantes em geral.
Com tanta sabedoria e predisposição para a santidade, ela adquiriu muitos dons especiais tendo visões, revelações e graças, durante suas orações contemplativas, seguidas de jejuns e penitências constantes. Devota de Maria e Jesus Crucificado, seus sacrifícios eram pelas almas do purgatório, que lhe apareciam durante as orações sob a forma de ratos negros, mas ao final se transformavam em dourados, simbolizando sua salvação pela Misericórdia de Deus. Essas visões ela comentava com as monjas, estimulando as preces à essas almas abandonadas. Por isso, nas suas representações existe sempre um rato ao seu redor. Os devotos, ainda hoje, a evoca contra as invasões de ratos e o medo que eles provocam.
Entretanto, o que mais a destacava era a sua profunda capacidade de compreender os anseios das almas. Por isso, Gertrudes se revelou uma eficaz pacificadora, ao interpelar os "senhores" locais que guerreavam entre si. Suas palavras, dotadas de sabedoria e autoridade, traziam constrangimento à eles, que partiam para o diálogo e conciliação.
As guerras pacificadas e o alívio ao povo sofrido fortaleceram sua fama de santidade em vida e gerou muitas tradições e venerações populares. Quando uma guerra era apaziguada, os oponentes brindavam juntos com o excelente vinho daquela região. O povo chamava a bebida de "Filtro de Santa Gertrudes", pois segundo a crença, a bebida era um "remédio" contra a guerra e o ódio.
Ela morreu em Nivelles, no dia 17 de março de 659, aos trinta e três anos e o seu culto foi imediato. Entretanto, o precioso relicário que continha seus restos mortais foi destruído num bombardeio, em 1940, que atingiu a basílica que o guardava. O que não diminuiu em nada sua veneração no mundo católico, que continua festejando Santa Gertrudes nesse dia.

PATRICIO DA IRLANDA

Bispo, Santo
377-461

17 de Março

Há poucos dados sobre a origem de Patrício, mas os que temos foram tirados do seu livro autobiográfico “Confissão”. Nele, Patrício diz ter nascido numa vila de seu pai, situada na Inglaterra ou Escócia, no ano 377. Era filho de Calpurnius, e neto de um padre e apesar de ter nascido cristão, só na adolescência passou a se dedicar à religião, e aos estudos.
Aos dezesseis anos, foi raptado por piratas irlandeses e vendido como escravo. Levado para a Irlanda foi obrigado a executar duros trabalhos em meio a um povo rude e pagão. Por duas vezes Patrício tentou a fuga, até que na terceira vez conseguiu se libertar. Embarcou para a Grã-Bretanha e depois para as Gálias, atual França, onde freqüentou vários mosteiros e se habilitou para a vida monástica e missionária.
A princípio, acompanhou São Germano do mosteiro de Auxerre, numa missão apostólica na Grã-Bretanha. Mas seu destino parecia mesmo ligado à Irlanda, mesmo porque sua alma piedosa desejava evangelizar aquela nação pagã, que o escravizara. Quando faleceu o Bispo Paládio, responsável pela missão no país, o Papa Celestino I o convocou para dar segmento à missão. Foi consagrado bispo e viajou para a "Ilha Verde", no ano 432.
Sua obra naquelas terras ficará eternamente gravada na História da Igreja Católica e da própria Humanidade, pois mudou o destino de todo um povo. Em quase três décadas, o bispo Patrício converteu praticamente todo o país. Não contava com apoio político e muito menos usou de violência contra os pagãos. Com isso, não houve repressão também contra os cristãos. O próprio rei Leogário deu o exemplo maior, possibilitando a conversão de toda sua corte. O trabalho desse fantástico e singelo bispo foi tão eficiente que o catolicismo se enraizou na Irlanda, vendo nos anos seguintes florescer um grande número de Santos e evangelizadores missionários.
O método de Patrício para conseguir tanta conversão foi a fundação de incontáveis mosteiros. Esse método foi imitado pela Igreja também na Inglaterra e na evangelização dos alemães do norte da Europa. Promovendo por toda parte a construção e povoação de mosteiros, o bispo Patrício fez da Ilha um centro de irradiação de fé e cultura. Dali partiram centenas de monges missionários que peregrinaram por terras estrangeiras levando o Evangelho. Temos, como exemplo, a atuação dos célebres apóstolos Columbano, Galo, Willibrordo, Tarásio, Donato e tantos outros.
A obra do bispo Patrício interferiu tanto na cultura dos irlandeses, que as lendas heróicas desse povo falam sempre de monges simples com suas aventuras, prodígios e graças, enquanto outras nações têm como protagonistas seus reis e suas façanhas bélicas.
Patrício morreu no dia 17 de março de 461, na cidade de Down, atualmente Downpatrick. Até hoje, no dia de sua festa os irlandeses fixam à roupa um trevo, cuja folha se divide em três, numa homenagem ao venerado São Patrício que o usava para exemplificar melhor o sentido do mistério da Santíssima Trindade: "um só Deus em três pessoas".
A data de 17 de março há séculos marca a festa de São Patrício, a glória da Irlanda. Os irlandeses sempre sentiram um enorme orgulho de sua pátria, tanto, por ter ela nascido na chamada Ilha dos Santos, quanto, por ter sido convertida pelo venerado bispo. Só na Irlanda existem duzentos santuários erguidos em honra a São Patrício, seu padroeiro.

GREGÓRIO MAGNO

Papa, Doutor da Igreja, Santo
540-604

12 de Março

Baluarte da Idade Média nascente

Doutor da Igreja, um dos maiores Papas da História, dirigiu a Barca de Pedro com rara habilidade e deu rumo à conturbada época em que viveu.
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“Gregório é certamente uma das mais notáveis figuras da história eclesiástica. Exerceu em vários aspectos uma significativa influência na doutrina, organização e disciplina da Igreja Católica. A ele devemos olhar, para a explicação da situação religiosa da Idade Média; com efeito, não se levando em conta seu trabalho, a evolução da forma da Cristandade medieval seria quase inexplicável. Tanto quanto o moderno sistema católico é um legítimo desenvolvimento do catolicismo medieval, não sem razão Gregório deve também ser chamado seu pai. Quase todos os princípios directivos do subsequente Catolicismo são encontrados, pelo menos em gérmen, em Gregório Magno”[1].
Ele “merece o glorioso título de Magno por todas as razões que podem elevar um homem acima de seus semelhantes: porque foi magno em nobreza e por todas as qualidades que vêm do nascimento e dos ancestrais; magno nos privilégios da graça com que o Céu o cumulou; magno nas maravilhas que Deus operou por seu intermédio; e magno pelas dignidades de Cardeal, de Legado, de Papa, para as quais a divina Providência e seus méritos o elevaram”[2].

Esmerada e virtuosa educação

Gregório nasceu em Roma no ano 540. Seu pai, Gordiano, era senador. Muito rico, após o nascimento do filho consagrou-se inteiramente a Deus no serviço dos pobres. Sua mãe, Sílvia, não era menos ilustre nem menos virtuosa, e passou os últimos anos de sua vida em contemplação num pequeno oratório para onde se retirou. Além de sua mãe, duas de suas tias, Tarsila e Emília, foram também elevadas à honra dos altares. Assim, seu primeiro biógrafo, João, o Diácono, fala de sua educação como sendo a de um santo entre santas[3].
Dotado de excepcional inteligência e brilhante memória, Gregório aprendeu com facilidade as letras divinas e humanas. É bem provável que tenha também estudado Direito. São Gregório de Tours, que nos deixou algumas impressões sobre ele, diz que em gramática, retórica e dialética ele era tão hábil que, segundo voz corrente, não tinha igual em toda Roma. Diz também que ele se entregou a Deus desde sua juventude.
Enquanto seu pai foi vivo, Gregório tomou parte na vida do Estado e chegou a ser prefeito de Roma. Com a morte daquele, resolveu retirar-se do mundo e consagrar-se a Deus. Isso deu-se provavelmente em 574. Com sua grande fortuna, fundou seis mosteiros na Sicília, além de um em Roma, em seu palácio, com o nome de Santo André. Nele tomou o hábito religioso. Sua caridade para com os pobres era tão grande, que foi premiada com vários milagres.
Em 577 o papa Bento I o nomeou cardeal-diácono ou regional. Os que estavam revestidos dessa dignidade, sete ao todo, presidiam às sete regiões principais de Roma para atender às suas necessidades.
Mais tarde o Papa Pelágio II enviou-o a Constantinopla, como legado e embaixador junto ao imperador Tibério. Sua missão principal consistia em mover o imperador a pôr ordem na Itália.
Depois de seis anos de vida diplomática nessa cidade, Gregório foi chamado a Roma, provavelmente em 585, sendo então eleito abade de Santo André. O mosteiro ficou famoso com seu enérgico abade, podendo-se ler muita coisa edificante dele em seus Diálogos. Dedicava-se muito à formação de seus monges, e explicou-lhes vários livros das Sagradas Escrituras, como o Pentateuco, o Livro dos Reis, os Profetas, o Livro dos Provérbios e o Cântico dos Cânticos.

Intervenção divina elimina a peste

No ano de 590, terríveis inundações seguidas de peste assolaram a Cidade Eterna, privando a Igreja de seu chefe, o Papa Pelágio. O clero, o povo e o Senado de Roma escolheram unanimemente para o Pontificado o diácono Gregório. Ele não queria aceitar, mas por fim acedeu, desde que a indicação fosse ratificada pelo imperador. Ao mesmo tempo escreveu a este, que era muito amigo seu, implorando que não ratificasse a escolha. Mas seu irmão, então prefeito de Roma, interceptou a carta e enviou ao imperador outra, enaltecendo as qualidades de Gregório e pedindo a confirmação no cargo.
Enquanto não vinha a resposta, Gregório assumiu interinamente o posto, devido ao estado de calamidade em que Roma se encontrava. Para fazer cessar o flagelo da peste, convocou procissões rogatórias gerais, durante três dias, com a presença de todos, inclusive a dos abades dos mosteiros da Cidade Eterna com seus religiosos, e das abadessas com suas religiosas. Gregório portou nessa procissão um antigo quadro da Virgem, cuja autoria é atribuída a São Lucas. Segundo a tradição, por onde passava o quadro, o ar corrompido cedia lugar ao são. Quando ele chegou nas proximidades do mausoléu de Adriano, de acordo com a mesma tradição, ouviram-se coros angélicos que cantavam: “Rainha dos Céus, alegrai-vos, aleluia; porque Aquele que merecestes portar, aleluia; ressuscitou como disse, aleluia”. O povo ajoelhou-se, cheio de devoção e alegria, e Gregório cantou: “Rogai por nós a Deus, aleluia”. No mesmo instante ele viu um anjo que embainhava a espada, para significar que o flagelo cessara. A partir de então o mausoléu de Adriano passou a ser conhecido como Santo Ângelo.
Quando chegou a resposta do imperador confirmando Gregório no cargo, este quis fugir, mas à força foi ordenado sacerdote e coroado Sumo Pontífice.

Capitão, rei, pontífice, pai do povo

Triste situação se apresentava ao novo Papa. A Igreja estava em deplorável estado, necessitando de mão firme que a reformasse. Na África, imperava a heresia donatista; na Espanha, a ariana; na Inglaterra, a idolatria; e na Gália, a simonia, os crimes de Fredegunda e os erros de Brunilda, rainha da Austrásia, na Gália. Na Itália, os lombardos, que eram arianos e rivais do poder imperial, faziam devastações. No Oriente, havia a arrogância dos patriarcas de Constantinopla e a má vontade dos imperadores bizantinos que, não podendo defender nem governar a Itália, ficavam enciumados por ver que os Papas cumpriam esse papel. Enfim, em todas as fronteiras do Império Romano, ondas de bárbaros ameaçavam acabar com o que restava de pé nesse mundo em transição.
O novo Papa “lutava contra a peste, contra os tremores de terra, contra os bárbaros heréticos e contra os bárbaros idólatras, contra o paganismo morto e infecto mas insepulto, contra seu próprio corpo, consumido pelas enfermidades; e se pôde dizer que a alma de Gregório era a única inteiramente sã que existia em toda a humanidade”[4]. Assim, com uma habilidade e energia raras ele se multiplicava, tornando-se capitão, rei, pontífice, pai dos romanos. Arregimentou tropas e pagou seu soldo, forneceu aos bárbaros as contribuições que exigiam para não invadir Roma; alimentou e consolou o povo. Obteve do rei dos lombardos uma trégua para Roma e seu território. Com a ajuda de Teodolinda, rainha dos lombardos, que era cristã e amiga fiel do Papa, conseguiu a conversão de toda a nação lombarda do arianismo para a fé católica. Livrou depois o território pontifício de todos os tiranetes que tinham surgido em meio à anarquia, dando início ao poder temporal dos Papas.
Em 592 o imperador bizantino, por um edito, proibiu seus soldados de abraçar a vida monástica. Imediatamente São Gregório escreveu-lhe mostrando que, com isso, ele feria as leis de Deus e o direito de consciência dos soldados. E lembrou ao imperador Maurício as contas terríveis que ele teria que prestar a Deus por essa decisão, no dia de seu juízo particular.
O grande Papa comunicou a seu embaixador em Constantinopla: “Sei tolerar por muito tempo, mas, uma vez que resolva resistir, lanço-me com alegria em todos os perigos. Antes morrer que ver a Igreja do Apóstolo São Pedro degenerar em minhas mãos”.
Por sua humildade, Gregório foi o primeiro Papa que se chamou “servo dos servos de Deus”. Em sua boca, essa declaração não era mera figura de retórica.

Consolida a liturgia, codifica o canto sagrado

Gregório foi profícuo em seus escritos, tendo todos eles alcançado grande repercussão. Daí o título que merecidamente recebeu de Doutor da Igreja. Em seu Livro da Regra Pastoral, por exemplo, uma de suas obras que mais influíram na Idade Média, fornece ao clero uma norma de vida. Já em suas Homilias, dirige-se ao povo com uma simplicidade comovedora. Sua palavra é tão eminentemente comunicativa, tão viva, tão apropriada, que a multidão a escuta religiosamente, às vezes com lágrimas, outras com aplausos.
De valor mais transcendental foram sua consolidação litúrgica e a codificação do canto eclesiástico (até hoje o canto-chão leva o seu nome, gregoriano). A ele se deve, por exemplo, o costume de cantar o Kyrie eleison na Missa, a introdução do Pai Nosso antes da fração da hóstia, e dos aleluias nos ofícios divinos, mesmo fora do tempo pascal. Teve muito empenho em realizar as cerimônias de culto com muita pompa exterior, para instrução e edificação do povo[5]. Do ponto de vista da liturgia, foi um digno predecessor do Papa São Pio V.
São Gregório Magno teve grande empenho na conversão dos ingleses, de modo a merecer o título de Apóstolo da Inglaterra.
O Pontífice, mesmo antes de ser eleito Papa, havia passado por diversas crises de saúde ― gota e intestinos ― que duraram meses inteiros.
Já no fim de sua vida, escreveu: “Há quase dois anos estou na cama, com grandes dores de gota, de modo que apenas nos dias de festa posso me levantar para celebrar. E logo, com a força da dor, me volto a deitar. [...] Assim, morrendo cada dia, nunca acabo de morrer, e não é maravilha que eu, sendo tão grande pecador, Deus me mantenha tanto tempo neste cárcere”. O grande Papa faleceu no dia 12 de março de 604, aos 60 anos de idade.
Plinio Maria Solimeo

[1] F. H. Dudden, Gregory the Great, 1, p. v, in The Catholic Encyclopedia, Volume VI, Copyright © 1909 by Robert Appleton Company, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight.
[2] Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo III, p. 360.
[3] G. ROGER HUDLESTON, Saint Gregory the Great, The Catholic Encyclopedia.
[4] Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo I, p. 488.
[5] Cfr. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luís Vives, S.A., Saragoça, 1947, tomo II, p. 126.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

ALBINO DE ANGERS

Abade, Bispo, Santo
469-550

1º de Março

Albino nasceu no ano 469, no seio de uma família cristã, que se encontrava em ascensão social e financeiramente, também pertencia à nobreza de Vannes, sua cidade natal, na Bretanha. Era uma criança reservada, inteligente, pia e generosa. Ao atingir a adolescência manifestou a vocação pela vida religiosa. Por volta dos vinte anos ordenou-se monge e cinco anos depois era escolhido, pela sua comunidade, o abade do mosteiro de Tintilante, também conhecido como de Nossa Senhora de Nantili, próximo de Saumur.
Durante mais vinte e cinco anos exerceu seu ministério, mantendo-se fiel aos preceitos da Igreja, trabalhando para manter a integridade dos Sacramentos e das tradições cristãs. Nesse período, todas as suas qualidades humanas e espirituais afloraram, deixando visível uma pessoa especial que caminhava na rectidão da santidade. Fez-se o pai e irmão dos pobres, dos humildes, dos perseguidos e dos prisioneiros. Tanto que foi eleito, para ocupar o posto de bispo de Angers, pelo clero e pela população, num gesto que demonstrou todo amor e estima do seu imenso rebanho.
Nesse posto trabalhou incansavelmente pela moralização dos costumes, contra os casamentos incestuosos que se tornavam comuns naquela época, quando os ricos da corte tomavam como esposas as próprias irmãs ou filhas. Para isso convocou os concílios regionais de Orléans em 538 e 541, participando em ambos activamente, arriscando a própria vida. Mas com o apoio da Santa Sé adquiriu novo fôlego para prosseguir na difícil e perigosa campanha de moralização cristã. Depois no de 549, se fez representar pelo seu discípulo e sucessor, o abade Sapaudo.
A tradição lhe atribui algumas situações prodigiosas e cobertas pela graça da Divina Providência, como a abertura das portas da prisão, a libertação dos encarcerados e muitos outros divulgados entre os fieis devotos.
Albino morreu no primeiro dia de março de 550 e foi sepultado na igreja de São Pedro em Angers. Devido o seu culto intenso já em 556 foi dedicada à ele uma igreja, na qual construíram uma cripta para onde seu corpo foi transladado. Ao lado dessa igreja foi criado um mosteiro beneditino, cujo primeiro abade foi seu discípulo Sapaudo.
Contudo, as relíquias do bispo Albino encontraram o repouso definitivo na catedral de São Germano em Paris, no ano 1126, quando o seu culto já atingira, além da França e Itália, também a Alemanha, Inglaterra, Polónia e vários países do Oriente.
Com justiça, Albino foi considerado um dos santos mais populares da Idade Média, que atingiu a Modernidade através da vigorosa devoção dos fiéis, reflexo de seu exemplo de moralizador. A festa litúrgica de Santo Albino é comemorada no dia de sua morte.

ROMãO DE CONDAT

Ermita, Abade, Santo
século V

28 de Fevereiro

São Romão, que viveu no século V e foi o primeiro eremita que existiu na França. Natural de Borgonha, entrou bem cedo no célebre e mais antigo mosteiro da França, Ainay. Tendo aprendido os princípios da vida religiosa, retirou-se para a solidão, num lugar chamado Condat, entre a Suíça e Borgonha, onde mais tarde se lhe associou o irmão, Lupicino. Algum tempo viveram juntos, entregues às práticas religiosas, quando começaram a experimentar impertinentes perseguições do demónio, que procurou assustá-los de mil modos. Bastante incomodados com as artimanhas do inimigo, retiraram-se daquele lugar, em demanda de um outro. Surpreendidos pela noite, hospedaram-se na choupana de uma pobre mulher. Esta, sabendo do motivo da fuga, disse-lhes: “Fizestes mal em ter abandonado a vossa casa. Se tivésseis lutado com mais coragem e pedido sossego a Deus, teríeis vencido as insídias do demónio”. Envergonhados com esta advertência, voltaram ao lugar de onde tinham saído e de facto nunca mais o demónio os incomodou.
A fama dos dois santos homens chamou muita gente ao lugar onde estes moravam, uns para pedir conselho, oração e consolo, outros, a estes em maior número, para, sob sua direcção, levar uma vida em Deus. Santo Hilário tinha conferido a Romão as ordens do sacerdócio. Junto com seu irmão Lupicino fundou três conventos: o de Condat, hoje São Cláudio (Saint Claude), o de Laucone e de la Baume. Ao redor deste último se agrupou a cidadezinha de Saint-Romain-de-Roche. Estes conventos gozavam de grande reputação na França, devido ao bom espírito, à vida santa que lá se levava. Romão era para todos o modelo de perfeição.
Em certa ocasião fez uma romaria ao túmulo de S. Maurício e levou em sua companhia o monge Paládio. A noite os surpreendeu e tiveram de abrigar-se numa gruta, que servia de albergue a dois leprosos. Grande foi o espanto destes, ao avistarem os dois religiosos na pobre habitação. Romão, para convencê-los de que nada precisavam temer, abraçou-os e beijou-os com muito afecto. Quando, no dia seguinte, os romeiros se despediram dos pobres lázaros, Romão fez o sinal da cruz sobre eles e no mesmo momento a lepra os deixou.
Este grande milagre aumentou ainda mais o grande conceito do Santo, em que o tinha todo o povo.
Romão, porém muito aborreceu-se com as honras de que o fizeram alvo e retirou-se para o convento de S. Cláudio, onde morreu em odor de santidade.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

GUILHERME JOSÉ CHAMINADE

Presbítero, Fundador, Beato
1761-1850

22 de Janeiro

Nasceu em Périgueux (França) em 1761:  era o décimo quarto filho de uma família profundamente cristã, que teve a alegria de ver quatro filhos sacerdotes. Em 1771 ingressou no Seminário Menor de Moussidan, onde, quatro anos mais tarde, fez votos privados de pobreza, castidade e obediência. Recebeu a Ordenação sacerdotal em 1785.
Em 1790, depois do início da Revolução francesa, transferiu-se para Bordéus e ali passou a maior parte da sua vida. Em 1791 negou-se a jurar a Constituição Civil do Clero e exerceu o ministério sacerdotal clandestinamente, pondo a sua vida em contínuo perigo. Nesse período conheceu a venerável Marie-Thérèse Charlotte de Lamourous (1754-1836), que se tornou uma das suas mais estreitas colaboradoras e que ele ajudou a fundar a Obra de Misericórdia de Bordéus para a protecção das jovens. Em 1795 dedicou-se a acolher na diocese os sacerdotes que, tendo feito o juramento constitucional, desejavam reconciliar-se com a Igreja. Atendeu neste ministério cerca de cinquenta sacerdotes.
Em 1797 viu-se obrigado a fugir para Saragoça (Espanha), onde permaneceu durante três anos. Ali, junto da Virgem do Pilar, forjou as suas convicções mariano-apostólicas e recebeu a inspiração de fundar uma família de leigos e religiosos dedicados a Maria.
Em Novembro de 1800 regressou a Bordéus e tentou reorganizar sobre bases novas a Congregação mariana, para ser uma instituição laical que depois, em 1810, se tornou o primeiro Instituto Secular do mundo. Esforçou-se por dar aos seus membros uma sólida formação religiosa e orientou-os para objectivos apostólicos bem precisos, exortando-os a oferecer à sociedade indiferente e descristianizada o exemplo de um povo de santos, como fizeram os cristãos da Igreja primitiva. Esta Congregação foi a base da sua incansável actividade evangelizadora, orientada para a cristianização da França. Chaminade foi considerado um percursor da participação activa dos leigos na vida da Igreja. Nestes anos cuidou também da reorganização da diocese de Bazas, da qual foi nomeado Administrador Apostólico.
Em 1801 a Santa Sé nomeou-o missionário apostólico, o que lhe constituiu a confirmação oficial das suas intuições sobre a Igreja desse novo tempo. O Pe. Chaminade concebeu o seu ministério e o da Congregação mariana, como uma missão permanente e estável, orientada para a formação na fé, com novos métodos e trabalhando em íntima aliança com Maria.
Em 1816, juntamente com a venerável Adèle de Batz de Trenquelléon (1789-1828), fundou em Agen o Instituto das Filhas de Maria Imaculada e, no ano seguinte, em Bordéus, a Companhia de Maria. Os seus primeiros membros, que com o tempo se chamariam Marianistas, eram congregados marianos, mulheres e homens, que queriam responder ao Senhor com uma entrega mais radical, como prolongamento do seu compromisso baptismal e da sua consagração à Virgem Maria.
Os dois Institutos desenvolveram-se rapidamente na França e, em 1839, receberam o "decretum laudis" do Papa Gregório XVI. Dado que o ensino era uma necessidade prioritária nessa época, os dois ramos de Marianistas dedicaram-se a escolas primárias, secundárias e de artes e ofícios, unindo à educação moral a formação na fé. Nasceram assim algumas escolas, mas a Revolução de 1830 fez com que não prosperassem.
Entretanto, o Pe. Chaminade dedicou-se especialmente a redigir as Constituições e escreveu importantes circulares sobre a consagração-aliança com Maria e a vida religiosa marianista. As comunidades e as obras continuavam a crescer na França, depois na Suíça (1839) e nos Estados Unidos da América (1849). A partir de 1836 as Filhas de Maria Imaculada, pondo em prática o desejo da sua fundadora, falecida em 1828, criaram escolas rurais no sudeste da França, assegurando assim a instrução e educação cristã das jovens e a promoção da mulher.
Os últimos dez anos da sua vida constituíram para ele um período de dura prova:  dificuldades de saúde, problemas financeiros, defecção de alguns discípulos, incompreensões e desconfianças, obstáculos no exercício da sua missão de fundador. Mas tudo foi enfrentado com grande confiança em Maria, fiel à sua consciência e à Igreja, repleto de fé e de caridade. Morreu em paz, rodeado de muitos dos seus filhos, junto da capela da Madalena em Bordéus, no dia 22 de Janeiro de 1850.