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segunda-feira, 7 de março de 2011

JOÃO DE AVILA

Sacerdote, Santo

1500-1569

8 de Março

João de Ávila [1] nasceu no ano de 1500 na pequena cidade de Almodóvar del Campo, na Diocese de Toledo. Seus pais, Alonso de Ávila e Catarina Xixón, eram “dos mais honrados e ricos do lugar”. O pai descendia de “cristãos novos” (judeus convertidos).
Precoce na inteligência e piedade, notava-se nele desde menino uma já notável mortificação, muita propensão para a oração, devoção profunda ao Santíssimo Sacramento e um amor especial pelos pobres.
Aos 14 anos foi mandado para a famosa Universidade de Salamanca para estudar Direito. Não terminara ainda esse curso quando, sentindo um apelo especial de Nosso Senhor para Seu inteiro serviço, abandonou o estudo voltando para casa. Nela permaneceu três anos em grande recolhimento, oração, penitência e frequência aos Sacramentos. Passava várias horas do dia em adoração diante do Sacrário. Seu intenso amor de Deus dirigiu-o, enfim, ao sacerdócio, pelo desejo de atrair o maior números de pecadores a seu Criador. Continuou assim seus estudos na não menos famosa Universidade de Alcalá, onde foi discípulo do bem conhecido Domingos de Soto, que predisse ao seu aluno um brilhante futuro.
No dia de sua ordenação, o Padre João de Ávila vestiu e serviu com as próprias mãos refeição a 12 mendigos em honra dos Apóstolos. Único herdeiro da grande fortuna dos  falecidos pais, vendeu tudo, distribuindo o obtido aos necessitados. Desde então passaria a viver de esmolas.
Começou então “uma vida austeríssima, de grande recolhimento e mortificação, dada à oração e favorecida com extraordinárias visões e revelações” [2]. “Às mortificações do corpo, juntava as do espírito. Morria todos os dias para si mesmo pela prática de uma renúncia absoluta, de uma humildade profunda e de uma inteira obediência” [3].

Apóstolo da Andaluzia

Sedento de almas, o jovem sacerdote dirigiu-se a Sevilha com o intuito de embarcar para as Índias, a fim de converter a multidão de pagãos que morria sem conhecer o verdadeiro Deus. Enquanto esperava a partida, um dia em que celebrava a Missa e pregava em uma paróquia da cidade, foi ouvido pelo Servo de Deus, Padre Fernando de Contreras. Vendo o grande tesouro espiritual que se encerrava naquele sacerdote de aspecto humilde e mortificado, quis saber de quem se tratava. Conhecendo assim o projecto do Padre João de Ávila, pediu o referido Padre Fernando ao Grande Inquisidor que ordenasse ao sacerdote, em nome da santa obediência, que permanecesse na Espanha, onde poderia obter também imensos frutos. Dessa forma começava sua carreira apostólica o grande Apóstolo da Andaluzia.

“O Espírito Santo fala por sua boca”

Como pregador, o Padre Ávila adquiriu logo grande renome. Escolheu São Paulo como modelo e patrono. Preparava-se para cada sermão com muita oração e penitência, a fim de obter que a graça divina o assistisse e a seus ouvintes.
Aos poucos a fama do novo pregador espalhou-se por toda a Andaluzia. “A sua popularidade é extraordinária. Quando prega, lotam-se as igrejas e tem que fazer seus sermões nas praças públicas” [4]. “Dir-se-ia que o Espírito Santo falava por sua boca, de tal modo seus sermões estavam cheios desses traços de fogo que convertem e mudam os corações. Ele retirava do vício aqueles que nele estavam enchafurdados, e confirmava no bem aqueles que não se tinham desviados das vias da justiça” [5].
Não é de admirar que, durante seus sermões  “até os rapazes que o ouviam, choravam; e quando terminava o sermão, era coisa maravilhosa ver as pessoas que o seguiam beijando-lhe as mãos e a roupa e mesmo os pés, se não houvera impedido” [6].
Os sermões do Padre Mestre Ávila tornaram-se tão famosos, que as pessoas dirigiam-se já de madrugada às igrejas onde ia pregar, para obter um bom lugar. Às vezes, sendo pequena a igreja, ele tinha que pregar nas praças públicas. E, lotando-se estas, as pessoas subiam até nos telhados das casas para ouvi-lo, ficando por mais de duas horas presos às suas palavras.

Ante o Tribunal da Santa Inquisição

Naquela época em que toda a Europa era abalada por cismas e pseudo-reformadores, e na própria Espanha uma seita, a dos iluminados, sob aparências de alta virtude, enganava muita gente piedosa, o Santo Tribunal da Inquisição estava muito activo para opor-se a qualquer novidade duvidosa. Fala a favor dessa instituição tão caluniada, o fato de que vários Santos, acusados por inimigos, foram a ela levados, julgados e, evidentemente, inocentados. Assim sucedeu com Santo Inácio de Loyola e com a grande Santa Teresa de Jesus.
Da mesma forma coube ao santo Mestre Padre Ávila a glória de ser acusado por invejosos perante o temível Tribunal, e de permanecer nele preso enquanto corria seu processo. Nesse isolamento concebeu uma de suas mais famosas obras, Audi, Filia (Ouve, Filha) escrita para uma de suas dirigidas a quem desejava elevar a eminente santidade.
Evidentemente, foi comprovada a inocência do Santo, fazendo tal evento brilhar mais sua ortodoxia.

Conselheiro de Prelados e correspondência com Santos

Para sustentar os inúmeros discípulos que se formaram a seu redor, o Padre Mestre Ávila dedicava boa parte de seu tempo à correspondência e a escrever obras espirituais.
Diz o grande teólogo Frei Luís de Granada que “as cartas lhe chegavam de todas as partes da Espanha. E, em seus últimos anos, era ele conselheiro nato de vários prelados, como o Arcebispo de Granada, D. Pedro Guerrero, D. Cristóbal de Rojas, bispo de Córdoba e D. Juan de Ribera, bispo de Badajoz e mais tarde arcebispo de Valência” [7]. Este último seria também elevado à honra dos altares.
São João de Ávila manteve correspondência com quase todos os Santos espanhóis contemporâneos seus, como São Pedro de Alcântara, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa de Jesus, São Francisco de Borja e São João de Ribeira.

Humildade do Santo em face de Santo Inácio

Se bem que o Padre Mestre de Ávila tenha atraído muitos discípulos,  não formou ele nenhuma Ordem religiosa. Mas, ao conhecer melhor a Companhia de Jesus, disse ao jesuíta Padre Villanueva: “Isso é o que eu andava atrás há tanto tempo. E agora dou-me conta de que não me saía porque Nosso Senhor havia encomendado esta obra a outro, que é vosso Inácio, a quem tomou por instrumento do que eu desejava fazer e não conseguia” [8].
Santo Inácio o tinha em alta conta, escreveu-lhe directamente, e ordenou aos seus representantes na Espanha – inclusive a São Francisco de Borja que acabara de ser recebido na Companhia – que visitassem o Padre Mestre de Ávila e tudo fizessem para atraí-lo para sua Ordem. O Mestre Ávila respondeu directamente a Santo Inácio que estava disposto a nela entrar se não estivesse constantemente tão doente. Mas aconselhou a trinta dos seus melhores discípulos que o fizessem. Doou à Companhia de Jesus vários dos colégios por ele fundados, e quis ser enterrado na igreja da Ordem em Montilla.
Os jesuítas da Espanha tinham por ele grande veneração, consultavam-no em casos difíceis, e o assistiram em seu leito de morte.

Plêiade de discípulos admiráveis

Aos poucos, muitos discípulos, atraídos por sua santidade, haviam se reunindo em torno do Padre Mestre Ávila. Inúmeros leigos, alguns da alta nobreza, também puseram-se sob sua direcção. Houve casos, como o da Condessa Ana Ponce de León, em que não só a castelã, mas todas suas donzelas de serviço entregaram-se definitivamente a uma vida verdadeiramente religiosa. Três de suas convertidas, por ele dirigidas, morreram em odor de santidade, tendo sido favorecidas com grandes graças místicas.
Um outro grupo de discípulos seus, liderados pelo Servo de Deus Padre Mateus de la Fuente, dedicou-se à vida contemplativa como solitários junto ao monte Tardón, restaurando depois na Espanha a primitiva Ordem de São Basílio. Outros ainda aderiram à reforma de Santa Teresa, vindo a tornar-se proeminentes Carmelitas Descalços. Um terceiro grupo, infelizmente, veio a ser o desgosto de sua vida. Entregues estes membros também à vida contemplativa, apesar das admoestações veementes e enérgicas do Santo ― que via o perigo que corriam por buscar o deleite espiritual pelo deleite em si ― dele se afastaram, acabando por seguir a seita dos iluminados e serem condenados pela Inquisição.

Vocação especial diante do sofrimento

A partir dos 50 anos, ou seja, nos últimos 19 anos de sua vida, o Padre Mestre João de Ávila esteve sempre doente, algumas vezes impossibilitado mesmo de levantar-se, seja com alta febre, seja com terríveis dores renais (descobriram-se três pedras em seus rins, depois de sua morte). Nem por isso deixava de atender aos inúmeros visitantes ou de ditar cartas para os seus dirigidos. À primeira melhora, já estava no púlpito.
“A sua ânsia pelo martírio se satisfazia no leito de dor, e constantemente repetia: ‘Senhor meu! Cresça a dor, e cresça o amor, que eu me deleito em padecer’”. Quando as dores eram mais insuportáveis, bem espanholamente exclamava: “Senhor: mais mal, e mais paciência”. E, também: “Fazei comigo, Senhor, como faz o ferreiro: mantende-me com uma mão, e batei-me fortemente com a outra” [9].
Às dores abdominais, acrescentaram-se, nos meses anteriores à sua morte, outras agudíssimas no ombro e lado esquerdo das costas. No mês de março, o médico, como verdadeiro católico, lhe disse: “Senhor, agora é o tempo em que os verdadeiros amigos digam as verdades: vossa reverendíssima está morrendo. Faça o que é necessário para a partida”. O Padre Mestre Ávila elevou os olhos ao céu numa súplica à Santíssima Virgem, e pediu em seguida os Sacramentos que recebeu com a mais tocante piedade.
Aos sacerdotes da Companhia de Jesus que acorreram junto ao seu leito de morte, perguntou: “Padres meus: o que costumam dizer aos que serão enforcados ou queimados quando os acompanham ao patíbulo?”. Responderam eles: “Que ponham sua confiança em Deus e nEle confiem”. O moribundo então suplicou-lhes: “Meus padres, digam-me então muito isso” [10].
Na madrugada do dia 10 de maio de 1569, o Padre Mestre João de Ávila foi receber no céu “o prêmio demasiadamente grande que Deus reserva àqueles que O amam”. A uma discípula foi revelado por um anjo que sua alma não passara pelo Purgatório, mas fora directamente para o Céu [11].
Santa Teresa de Ávila,  que estava em Toledo na casa de Dona Luisa de la Cerda, quando recebeu a notícia  pôs-se a chorar copiosa e sentidamente. Às Irmãs que lhe perguntaram a razão desse tão profundo pranto, uma vez que o Padre Mestre de Ávila deveria já estar gozando de Deus, respondeu: “Disso estou bem certa. Mas o que me dá pena é que a Igreja de Deus perde uma grande coluna, e muitas almas, um grande amparo que tinham nele, que a minha, apesar de estar tão longe, o tinha por causa disso obrigação” [12].
Os desígnios de Deus são imperscrutáveis. Apesar de todos esses sinais e testemunhos universais de santidade, o Padre Mestre Ávila só foi beatificado em 1894, portanto, mais de três séculos depois, e seria canonizado quase oitenta após a beatificação, em 1970!
Afonso de Souza
Artigo extraído da Revista Catolicismo de Maio de 1999


[1] Tomamos como base para este artigo a biografia que aparece nas Obras Completas del Santo Maestro Juan de Avila, de autoria dos Pes. Luís Sala Balust e Francisco Martin Hernandez (Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 1970). Esse livro tem como fundamento a primeira biografia do mesmo escrita pelo célebre teólogo e místico dominicano espanhol, Frei Luís de Granada, seu amigo íntimo;  as declarações dos contemporâneos do Santo constantes nos processos visando sua beatificação; suas obras e correspondência. Para simplificação, as citações das mencionadas Obras Completas aparecerão como BAC e o número da página onde figuram.
[2] BAC, p. 37.
[3] Les Petits Bollandistes, Vies des Saints,  Mgr Paul Guérin, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, t. III, p. 292.
[4] BAC, p. 38.
[5] Les Petits Bollandistes, op. cit.,  p. 293.
[6] BAC, p. 38.
[7] BAC, pp. 264/265.
[8] Idem,  p.158.
[9] Idem,  p.158.
[10] Idem, p. 334.
[11] Cfr. id., p. 339.
[12] Padre Diego de Yepes, Vida, virtudes y milagros de la Bresa de Jesús , apud BAC, p. 340.


JOÃO DE DEUS

Religioso, Fundador, Santo
1495-1550

8 de Março

Dois anos antes da partida de Vasco da Gama para a Índia, nascia em Montemor-o-Novo, Alentejo, um outro grande herói de seu nome João. Este nasceu no dia 8 de Março de 1495, na Rua Verde, numa habitação modesta, de gente humilde e honrada.
Aos oito anos, João ouviu, de um padre em visita, sobre as aventuras que o poderiam esperar, nesse ano de 1503, na descoberta de novos mundos. Nessa mesma noite fugiu de casa para viajar com o padre e nunca mais viu os seus pais. Foram vivendo da ajuda popular de aldeia em aldeia até que João adoeceu.
O homem que tratou dele, regente de uma grande propriedade, adoptou-o posteriormente. João trabalhou como pastor nas montanhas até aos vinte e sete anos. Sentindo-se pressionado para casar com a filha do regente, a qual amava como irmã, João foi-se embora e alistou-se no exército espanhol na guerra contra França. Como soldado, era tudo menos modelo de santidade, participando no jogo, na bebida e nas pilhagens que os seus camaradas apreciavam. Um dia, caiu de um cavalo roubado perto das linhas francesas. Com medo de ser capturado ou morto, reviu toda a sua vida e fez um voto impulsivo de mudança.
Quando regressou, mantendo o estímulo do voto feito, confessou-se, e imediatamente mudou a sua vida. Os seus camaradas não se importavam muito com o seu arrependimento mas detestavam que ele quisesse que eles também deixassem os seus prazeres. Usavam, então, da sua natureza impulsiva para o enganarem, e ele deixar o seu posto, com o pretexto de ajudar alguém em necessidade. Foi salvo da forca, no último minuto, e corrido do exército, depois de espancado e despido. Mendigou no caminho de volta para a casa onde tinha trabalhado como pastor, até que ouviu falar de uma nova guerra com os Muçulmanos a invadirem a Europa. Partiu de novo, mas no final da guerra, decidiu tentar encontrar os seus pais. Para sua tristeza, descobriu que ambos tinham morrido na sua ausência.
Como pastor teve imenso tempo para meditar sobre o que Deus quereria da sua vida. Quando decidiu, aos trinta e oito anos, que deveria ir para África para resgatar cristãos cativos, deixou tudo para trás e dirigiu-se ao porto de Gibraltar. Estando na doca à espera do seu navio, encontrou uma família visivelmente triste e desgostosa. Tendo descoberto que eram uma família nobre que partia para o exílio em África devido a intrigas políticas, abandonou o seu plano original e voluntariou-se como seu servo. A família adoeceu, quando chegou ao exílio, e João manteve-os, não só cuidando da sua doença, mas também ganhando dinheiro para a sua alimentação. O seu trabalho na construção de fortificações era castigador e desumano, sendo os trabalhadores espancados e maltratados por pessoas que se auto-intitulavam de católicos. Vendo cristãos a agir desta forma tão inquietante, João viu a sua fé abalada. Um padre aconselhou-o a não acusar a Igreja pelos seus actos e a partir para Espanha imediatamente. João regressou – mas apenas após ter a certeza de que a sua família de adopção recebera o perdão.
Em Espanha passou os seus dias carregando navios e as suas noites visitando igrejas e lendo livros espirituais. A leitura deu-lhe tamanho prazer, que decidiu dever partilhar essa alegria com os outros. Deixou o seu trabalho e tornou-se vendedor ambulante de livros, viajando de vila em vila vendendo livros e postais religiosos. Teve uma visão, aos quarenta e um anos, que o levou a Granada onde vendeu livros numa pequena loja. (Por isso é o santo padroeiro dos livreiros e tipógrafos).
Depois de escutar um sermão pelo famoso João de Ávila sobre arrependimento, ficou tão perturbado pelo pensamento nos seus pecados, que toda a vila foi levada a pensar que o pequeno livreiro tinha passado de simples excentricidade à loucura. Após o sermão, João dirigiu-se imediatamente para a sua livraria, rasgou todos os livros de conteúdo secular, deu todos os seus livros religiosos e todo o seu dinheiro. De roupas rasgadas e em pranto, era alvo de insultos, de piadas, e até de pedradas e lama arremessadas pela população da vila, incluindo as suas crianças. Amigos levaram o enlouquecido João para o Hospital Real, onde foi internado com os lunáticos. João recebeu o tratamento normal daquela época – ser amarrado e açoitado diariamente. João de Ávila veio visitá-lo, dizendo-lhe que a sua penitência já durava há tempo suficiente – quarenta dias, o mesmo período que o Senhor sofreu no deserto – e fez com que João fosse levado para uma zona melhor do hospital.
João de Deus não conseguia ver sofrimento sem que não tentasse algo para o colmatar. E agora que estava livre de movimentos, embora ainda como paciente, imediatamente se levantou e começou a ajudar os outros doentes à sua volta. O hospital ficou radiante por ter a sua ajuda gratuita nos cuidados, não ficando contente por o deixar sair posteriormente, quando um dia se apresentou para anunciar que iria fundar o seu próprio hospital.
João bem estava certo de que Deus queria que ele fundasse um hospital para os pobres, que recebiam fraco tratamento, ou mesmo nenhum, dos outros hospitais, mas toda a gente ainda o olhava como um homem louco. Não foi grande sucesso, a sua decisão de financiar o seu plano com a venda de lenha na praça. À noite, pegando no pouco dinheiro que ganhava, trazia comida e conforto aos pobres que viviam em edifícios abandonados e sob as pontes. De facto, o seu primeiro hospital foram as ruas de Granada.
Uma hora após ter visto uma placa numa janela dizendo "Aluga-se casa para alojamento de pobres", alugou a casa para poder prestar cuidados debaixo de tecto. Claro que fez o aluguer sem dinheiro para acessórios, medicamentos ou ajuda. Depois de ter pedido dinheiro para camas, voltou às ruas e trouxe os seus pacientes aos ombros, que já tinham carregado pedras, lenha e livros. Uma vez dentro de casa, lavou-os, fez-lhes curativos, e remendou-lhes as roupas à noite, enquanto rezava. Usou da sua antiga experiência como vendedor ambulante para pedir esmola, apregoando pelas ruas na sua voz de vendedor, "Façam bem a vós próprios! Por amor de Deus, Irmãos, façam o bem!" Em vez de vender mercadorias, antes aceitava tudo o que lhe pudessem dar – sobras, roupas, moedas.
Ao longo da sua vida foi criticado pelas pessoas que não gostavam do facto do seu amor impulsivo se estender a todos os necessitados, sem perguntar por credenciais ou referências pessoais. Quando lhe foi possível mudar o seu hospital para um antigo mosteiro Carmelita, abriu um abrigo para os sem-casa no hall do mosteiro. Imediatamente, os seus críticos tentaram demovê-lo com o argumento de que estaria a saciar arruaceiros. A sua resposta a estas críticas foi sempre de que apenas conhecia um mau carácter no hospital, ele próprio. A sua solicitude para agir imediatamente quando via necessidades, levou-o a estar em apuros várias vezes. Uma vez, tendo encontrado um grupo de pessoas famintas, correu para uma casa, roubou uma panela com comida e deu-lhes. Quase que foi preso por este acto de caridade! De outra vez, tendo visto um grupo de crianças esfarrapadas, entrou numa loja de roupas e comprou roupas novas a todas. Como não tinha dinheiro, pagou a crédito!
No entanto, o seu desejo impulsivo de ajudar salvou muita gente numa certa emergência. Soou o alarme de que o Hospital Real estava a arder. Tendo largado tudo para se dirigir ao local, constatou que a multidão apenas estava a assistir ao hospital – e seus doentes – a serem consumidos pelas chamas. Correu para o edifício em chamas e carregou ou ajudou os doentes a sair. Quando todos os doentes estavam a salvo, começou a atirar cobertores, lençóis e colchões pelas janelas – quão bem sabia, pelo seu difícil trabalho, como eram importantes estes objectos. Nesse momento, foi trazido um canhão para destruir a parte em chamas do edifício de modo a salvar o resto. João pediu-lhes que parassem, subiu ao telhado, tendo separado com um machado a parte em chamas. Conseguiu, mas acabou por cair do telhado em chamas. Todos pensaram que teriam perdido o seu herói, até que João de Deus apareceu miraculosamente de entre o fumo. (Por esta razão, João de Deus é o Santo Padroeiro dos bombeiros).
João estava doente quando ouviu que uma cheia estava arrastando madeira para perto da vila. Saltou da cama para recolher essa madeira do rio em fúria. Tendo um dos seus companheiros caído ao rio, João sem pensar na sua doença e segurança atirou-se ao rio para o salvar. Não conseguiu salvar o rapaz e apanhou uma pneumonia.
Morreu no dia 8 de Março, no aniversário dos seus cinquenta e cinco anos, do amor impulsivo que o guiou toda a vida.