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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

JOÃO DE BRITO

Jesuíta, Mártir, Santo
1647-1693

4 de Fevereiro

Filho de Salvador de Brito Pereira, de Vila Viçosa, trincheiro-mor do senhor D. João IV, e de Dona Brites de Portalegre, nasceu João de Brito, em Lisboa, na calçada de S. André (Costa do Castelo), no primeiro de Março de 1647. De ascendência fidalga, deste menino cujo seu destino natural era ser pagem na Corte. O país vivia então uma prolongada guerra com Espanha, em resultado da restauração da Independência (1640). João de Brito já entrado na adolescência, é vítima de uma grave enfermidade. A sua cura marcou uma viragem na sua vida, dado que para dar cumprimento à promessa de sua mãe, teve que vestir o hábito de S. Francisco Xavier.
No ano que sobe ao trono D. Afonso VI, 1662, a 17 de Dezembro, entra no noviciado da Companhia de Jesus em Lisboa. Faz estudos em Évora e Coimbra, será professor no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, mas o sonho dele é a Índia. No ano de 1668, pede ao Superior Geral que o deixe ser missionário. Entretanto, passam os anos, consolida-se a vocação, ordenado sacerdote (1673) e recebe com alegria o mandato de partir as missões da Índia, não obstante a intervenção do núncio apostólico, solicitado por influências da Corte movidas a rogos de sua mãe. Partiu a 25 de Março de 1673 numa expedição em que vão 27 jesuítas (16 portugueses, 1 romeno, 1 italiano, 1 siciliano, 1 de Trento, 1 saboiano, 1 inglês, 2 belgas e 1 bávaro), sendo capitão-mór Rodrigo da Costa. Uns destinam-se à China, outros como João à India.
No ano de 1674, desembarca em Goa, a grande capital do Oriente. Logo vai fazer visita ao túmulo de S. Francisco Xavier.  A missionação na Índia como é sabido pode caracterizar-se em várias fases: a 1ª (de 1498 a 1542) é marcada pela actividade dos franciscanos e dominicanos. A 2ª. corresponde à estadia de S. Francisco Xavier, durante uns 6 a 7 anos, antes de partir para o Japão. Xavier limitou-se à costa marítima, passando ao lado da civilização hindú. A 3ª. fase é marcada pela chegada de novas Ordens e congregações religiosas, mas em que pouco se altera  a postura anterior. A 4ª fase, os missionários, como João de Brito, adoptam um modo de viver, vestir e de comer dos "pandarás-suamis", género de penitentes aceites por todas as castas da Índia. Com este novo método os missionários aumentam a sua aceitação. 
Em Abril de 1674 entrou na missão do Maduré, na qual abraçou a vida austera e penitente dos pandarás-suamis, a fim de evitar a repugnância dos indianos cultos pelos missionários associados à conversão dos párias, a casta mais desprezada da Índia que tornava imundos os que com eles contactavam. A sua figura é emblemática do novo método de evangelização seguido na Índia pelos missionários. Na mão segura uma cana de bambú, veste roupão cor de almagre, calça palmilhas de madeira. 
Em doze anos de apostolado governou a residência de Colei, passou aos reinos de Ginja e de Travancor, atravessou a pé, e muitas vezes descalço, o continente Índico e percorreu a costa da Pescaria e de Travancor e esteve muitas vezes a ponto de perder a vida.
Em 1685, seria nomeado superior da missão de Maduré. Esperam-no tribulações e sacrifícios. No território de Muravá, é sujeito ao suplicio da água e açoites. O régulo interdita-o de aí pregar. Em 1686 desencadeou-se violenta perseguição no Maravá. Correndo a apoiar os cristãos, foi preso pelo chefe das milícias do reino, que o sujeitou enormes torturas e o condena a ser empalado. Mas era precisa confirmação desta sentença pelo soberano, a cuja presença João de Brito foi levado. Porém o rei, depois de o sujeitar a interrogatório sobre a doutrina que pregava, restituiu-o à liberdade, impondo-lhe que não voltasse a entrar no Maravá. 
Partiu para o Malabar, cujo provincial o mandou como procurador à Europa, a fim de em Lisboa e em Roma informar o que se passava nas missões . Chegou a Lisboa a 8 de Setembro de 1687. O novo rei Pedro II, por motivos políticos não autorizou a viagem a Roma. João de Brito percorre então as principais casas dos jesuítas em Portugal procurando reunir apoios para a missão no Oriente.
Ultrapassando todos os obstáculos volta a partir para a Índia a 8 de Abril de 1690 com 25 novos missionários, sendo 14 portugueses. Entrou em Goa a 2 de Novembro. É nomeado visitador do Maravá e aí trabalha cerca de ano e meio. Os convertidos ao catolicismo atingem os oito mil. Entre eles contava-se um príncipe da casa real, baptizado a 6 de Janeiro de 1693. 
Corre célere a fama do Apóstolo do Malabar, Não lhe esmorece o entusiasmo. Os poderosos locais olham-no com desconfiança. A condenação não tardou. Bastou que João de Brito que tivesse ido outra vez à terra de Maravá para que o governador Ranganadevem o acusasse de desobediência e o condenasse à morte . O martírio chegou no alto do monte sobranceiro ao rio Pamparru, à vista de Urgur. Decapitado foi em Fevereiro de 1693. O cadáver é amputado de pés e mãos, sendo os despojos dados às feras e aos abutres. Os cristãos puderam ainda recolher o crânio e alguns ossos. O cutelo da execução obteve-se do verdugo mediante grossa soma de dinheiro. Contido numa bainha de filigrana de prata foi trazido para Lisboa e oferecido a D. Pedro II, que o confiou à guarda da Companhia de Jesus, no Colégio de Santo Antão. O local do martírio começou logo a ser venerado pelos cristãos.
Séculos mais tarde coube ao Papa Pio XII canonizar o santo missionário português, assinando de modo sublime na história da Igreja urna página de gesta heróica. A canonização realizou-se a 22 de Junho de 1947. Na audiência concedida, no dia seguinte, à peregrinação portuguesa que assistiu à canonização, Pio XII evocou as legiões de missionários portugueses.

sábado, 15 de janeiro de 2011

JOSÉ VAZ

Sacerdote Oratoriano, Apóstolo de Sri-Lanka, Beato1651-1711

16 de Janeiro

No antigo Ceilão, hoje Sri-Lanka, o catolicismo foi sustentado em larga medida pela admirável virtude de seu apóstolo, o Bem-aventurado Padre José Vaz, do Oratório de Goa
*****
Estabelecido no Ceilão (ilha ao sul da Índia) em 1505, quando lá chegaram os portugueses, o catolicismo foi se difundindo por toda a região costeira ocidental da ilha — a lendária Taprobana dos romanos, de que fala Camões — penetrando também em alguns pontos do seu interior, como no poderoso reino de Kandy [1].
Em 1658, os protestantes holandeses conquistaram a ilha. Expulsaram os missionários, proibindo, sob pena de morte, dar-lhes abrigo e obrigando os católicos a frequentar seus templos, para serem bem vistos pelos novos dirigentes. Sob condições tão adversas, a perseverança dos católicos estava ameaçada.

Zelo apostólico: socorrer o Ceilão

Em Goa, na Índia portuguesa, o Padre português José Vaz teve notícia dessa triste situação e desejou socorrer os católicos perseguidos. Mas o trabalho desse sacerdote no Ceilão teria que ser estável e duradouro, necessitando de longa preparação. Assim, 12 anos haveriam de transcorrer até que ele pudesse pisar naquele solo.
O Padre Vaz ingressou então num instituto religioso, aparentemente sem nenhum futuro. Quase imediatamente foi eleito seu superior. Como tal, obteve a afiliação do núcleo à Ordem do Oratório, fundada por São Felipe Néri na Itália.
O Oratório de Goa foi a primeira instituição puramente indígena em toda a Ásia. Seu papel seria providencial, pois haveria de prover, por mais de 100 anos, os missionários para o Ceilão, num período em que os europeus estavam impossibilitados de fazê-lo. Teria também a glória de dar à ilha seus dois primeiros bispos.

Sillalai: aldeia fidelíssima resiste à heresia

Disfarçado de mendigo, o Padre Vaz, acompanhado de um jovem escravo, conseguiu penetrar no Ceilão.
Chegando depois de mil vicissitudes a Jaffna, ao norte da ilha, lançou mão de um meio simples, mas heróico, naquela circunstância, para encontrar os católicos que escondiam sua fé: pendurou o terço no pescoço.
Se a medida atraiu a ira dos governantes e o escárnio dos pagãos, por outro lado chamou a atenção dos católicos. Por esse meio, as portas para seu apostolado ficaram semiabertas. Semi, porque prosseguia a implacável perseguição protestante e o risco de morte.
Os católicos não permitiram ao sacerdote que permanecesse na cidade, repleta de hereges e seus espias, mas na vizinha Sillalai. Seus habitantes eram católicos tão resolutos, que os holandeses, para evitar uma revolta, resolveram ignorá-los. Assim, a pugnaz aldeia transformou-se no quartel-general da missão do Padre Vaz. De lá ele atendia Jaffna e redondezas.

Primeiros mártires da nova missão

Dom Pedro [2] era um jovem católico rico e influente. Mas era ambicioso e, para estar em bons termos com o novo poder, renegou a verdadeira Religião. Quando o Padre Vaz chegou a Jaffna, Dom Pedro não pôde resistir à pressão da consciência, foi vê-lo e voltou convertido.
Embora ambicioso, ele não era medíocre. E praticou severas penitências para compensar sua apostasia. Isso agradou tanto à Providência Divina, que lhe reservou o inestimável dom do martírio.
Na véspera do Natal de 1689, o Padre Vaz, valendo-se do privilégio desse dia, celebraria a Santa Missa em três casas diferentes.
Enquanto os fiéis esperavam em cada uma delas rezando o Rosário, as três residências foram invadidas simultaneamente pelos soldados protestantes. Alguém havia traído. O Padre Vaz escapou milagrosamente, sendo porém aprisionados mais de 300 católicos.
O comandante holandês mandou libertar as mulheres, crianças e a maioria dos homens, depois de cobrar pesada multa. Mas reteve os oito líderes. Sua cólera concentrou-se sobretudo em Dom Pedro, que havia repudiado a pseudo-religião reformada e todos os favores dos hereges. Ou ele voltaria atrás, ou seria executado. Dom Pedro não se dignou responder. Foi duramente flagelado para que cedesse. Enquanto os violentos golpes se sucediam, Dom Pedro foi meditando na Paixão do Salvador, até perder os sentidos. Semi-morto, foi lançado à prisão, onde seus sete companheiros o esperavam. Voltando a si, mal teve forças para exortar os outros a perseverarem, indo em seguida receber no Céu a coroa da glória eterna.
Os demais perseveraram. Condenados a trabalhos forçados, todos morreram em breve espaço de tempo, vítimas de sofrimentos físicos e morais.

Generosidade providencial de um tecelão

Após o ocorrido em Jaffna, o Padre Vaz julgou que lá permanecer seria arriscar continuamente sua vida e a de seu rebanho. Dirigiu-se então para Kandy, onde também, havia várias décadas, os cristãos estavam sem pastor. Mas foi precedido por um calvinista francês, que convenceu o monarca local de que o missionário era um espião português. Tão logo chegou, o apóstolo foi posto na prisão.
O futuro do catolicismo no Ceilão dependeu nesse momento, humanamente falando, da tocante fidelidade, desapego e sensibilidade de alma de um tecelão que costumava preparar tecidos bordados para o rei e a corte de Kandy, reino independente no centro da ilha.
Ele veio a saber da prisão do Padre Vaz algum tempo depois. Preparou então com esmero o mais elaborado tecido que jamais tinha feito, e dirigiu-se ao palácio. Maravilhado, o monarca perguntou-lhe quanto queria por aquela obra de arte. “Nada mais do que a permissão de ver e falar com o sacerdote que V. Majestade tem em sua prisão” — foi a surpreendente resposta.
Realmente, o ter a possibilidade de confessar-se depois de tantos anos era o melhor pagamento que esse verdadeiro cristão poderia receber. Mas Nossa Senhora recompensou sua generosidade: o rei ficou tão tocado com o amor do tecelão à sua Religião, que lhe respondeu que não só ele, mas todos os cristãos que quisessem falar com o padre poderiam fazê-lo livremente.
Assim, em virtude desse ato de generosidade e desprendimento de um simples fiel, o Padre Vaz pôde transformar a prisão, durante dois anos, em sua primeira paróquia. Foi-lhe permitido fazer uma cobertura de folhas de coqueiro no quintal da prisão, e lá ele celebrava, pregava, atendia confissões, realizava casamentos e baptismos, ensinava catecismo e preparava crianças para a Primeira Comunhão.
No fim desse período, convencido da inocência do missionário, o rei libertou-o, autorizando-o além disso a construir uma igreja na capital.

Factos extraordinários e edificantes

A vida do Padre Vaz foi tão admirável, que um dos seus auxiliares, escrevendo ao Superior do Oratório de Goa em 1698, diz: “Como o género de vida do Padre Vaz é em realidade mais sobre-humano que natural, o povo do país credita-lhe muitos milagres. Mesmo os pagãos e os muçulmanos relatam fatos sobre ele que são os mais extraordinários”. Eis alguns:
O Padre Vaz acabara de entrar em uma casa em Colombo, onde ia celebrar, quando os holandeses chegaram. Os fiéis fugiram por todos os lados. Carregando consigo todo o material para a Missa, o santo missionário atravessou calmamente em meio aos soldados, sem que estes o vissem.
Outra vez, viajava o Padre Vaz de Kandy a Puttalam com alguns companheiros, quando chegaram a um rio cujas águas tinham subido muito em virtude das chuvas. Confiando na Providência, o sacerdote penetrou no rio, medindo sua profundidade com uma vara. Quando alcançou o meio, com as águas não indo além de seus joelhos, chamou seus amigos para segui-lo. Não só eles, mas alguns pagãos também atravessaram o rio seguidos. Vendo isso, alguns viajantes muçulmanos desmontaram suas tendas e tentaram fazer o mesmo. Tão logo entraram no rio, a água, chegando-lhes aos ombros, voltou a correr tão violentamente que tiveram de recuar.
Um rico e influente budista de Kandy não podia suportar a ascendência que o Padre Vaz tinha sobre o rei. Certo dia em que o sacerdote estava ausente, reunindo os influentes budistas da cidade, foi diante do rei apresentar toda sorte de mentiras e calúnias contra o sacerdote, ameaçando uma sublevação caso a igreja da missão não fosse demolida, e os sacerdotes banidos. O monarca, que enfrentava outros difíceis problemas políticos, consentiu em expulsar os padres. Mas, ao mesmo tempo, mandou avisar o Padre Carvalho, que substituía o Padre Vaz na missão, que ele não tinha nada a temer, e que podia levar consigo o que pudesse.
Os hindus arrasaram a igreja enquanto o Padre Carvalho fugia levando o indispensável para a Missa, refugiando-se na fazenda de um português.
O castigo divino não tardou. O líder budista foi atacado por terrível moléstia, suas pernas se paralisaram, horrível úlcera se lhe formou na língua e todo seu corpo foi coberto de feridas. Todos os habitantes de Kandy, mesmo os pagãos, reconheceram nisso um castigo de Deus.
Pouco depois, através dos bons ofícios do médico do rei, o Padre Vaz recebeu liberdade para pregar novamente não só na capital, mas em todo o reino.

Pesadas cruzes no final da vida

Amando ardentemente a Nosso Senhor Jesus Cristo, o Padre Vaz venerava também sua Cruz, seguindo sua senda dolorosa.
Estava ele pregando certo dia, quando sua habitual febre elevou-se assustadoramente. Levado para Kandy, suas pernas se paralisaram.
Mas, havendo dois agonizantes que necessitavam dos últimos sacramentos, arrastando-se, deixou seu leito para ir socorrê-los. A caminho da segunda visita, seu carro de boi tombou, e o Padre Vaz rolou de considerável altura para o fundo de uma ravina. Em virtude disso a paralisia das pernas tornou-se total, formou-se um abscesso em seu ouvido direito e seu maxilar endureceu, tendo-lhe sido impossível fechar a boca durante quatro dias. No decorrer desses tormentos, seu único alívio era pronunciar o dulcíssimo nome de Jesus, oferecendo-Lhe seus sofrimentos.
Vendo que seus dias estavam contados, renunciou nas mãos do Padre José Menezes aos cargos de Vigário Geral do bispo de Cochin e de Superior Geral dos Oratorianos no Ceilão, expirando a 16 de janeiro de 1711, sendo beatificado em janeiro de 1995.
Plínio Maria Solimeo

[1] Os dados que serviram de base a este artigo foram extraídos da obra do Arcebispo S. Ladislas, The Apostle of Ceylon, St. Joseph's Catholic Press, Jaffna, Sri Lanka, 1991.
[2] Don, aqui, é uma corruptela do Dom português. Os nativos, ouvindo frequentemente esse apelativo e não se dando conta de que era uma forma de tratamento, adotaram-no como nome próprio.